Instituto Paulista de Sexualidade
17 de maio de 2026
O dia 17 de maio marca uma das datas mais importantes na luta pelos direitos da população LGBTQIA+: foi nesse dia, em 1990, que a Organização Mundial da Saúde deixou de classificar a homossexualidade como doença. A decisão representou um marco histórico no processo de despatologização de sexualidades dissidentes e ajudou a consolidar uma mudança fundamental: identidades e orientações afetivo-sexuais são expressões legítimas da experiência humana.
Mais de três décadas depois, porém, a LGBTQIA+fobia continua produzindo impactos profundos na vida cotidiana e, especialmente, na saúde mental dessa população.
Quando o preconceito se transforma em sofrimento psíquico
Falar sobre saúde mental da população LGBTQIA+ exige compreender que sofrimento psíquico não surge de forma isolada. Em muitos casos, ele está diretamente relacionado às violências estruturais e interpessoais vividas ao longo da vida.
A discriminação pode aparecer de formas explícitas, como agressões físicas, expulsão de casa, bullying, violência sexual e exclusão social. Mas também se manifesta de maneira silenciosa: no medo constante de rejeição, na necessidade de esconder quem se é, na vigilância sobre o próprio comportamento, na ausência de pertencimento e na sensação contínua de insegurança.
Esse cenário produz efeitos concretos. Estudos nacionais e internacionais apontam maiores índices de ansiedade, depressão, ideação suicida, abuso de substâncias e sofrimento psíquico entre pessoas LGBTQIA+ quando comparadas à população geral. Não porque suas identidades produzam adoecimento, mas porque a violência social produz sofrimento.
A LGBTQIA+fobia pode atravessar relações familiares, ambientes escolares, experiências religiosas, vínculos afetivos e trajetórias profissionais inteiras. Muitas pessoas crescem aprendendo que precisam corrigir, esconder ou negar partes de si mesmas para serem aceitas.
Não existe saúde mental plena em contextos marcados por medo, exclusão e violência.
O peso histórico da patologização
A retirada da homossexualidade da lista de doenças da OMS representou mais do que uma mudança técnica. Foi um reconhecimento político, científico e ético de que sexualidades dissidentes não devem ser tratadas como algo a ser corrigido.
Esse processo também impactou diretamente a atuação das profissões da saúde mental. No Brasil, as Resoluções CFP nº 01/1999 e nº 01/2018 estabeleceram marcos importantes ao proibirem práticas de “cura”, reversão ou correção de orientações sexuais e identidades de gênero.
Essas normativas reforçam um princípio central: o papel da Psicologia não é enquadrar pessoas em padrões normativos de sexualidade e gênero, mas oferecer cuidado ético, acolhimento e promoção de saúde.
Ainda hoje, discursos patologizantes continuam circulando socialmente, muitas vezes com roupagens de opinião, moralidade ou pseudociência.
Por isso, lembrar o significado do 17 de maio segue sendo necessário.
Saúde mental também depende de pertencimento
A discussão sobre saúde mental não pode ser reduzida apenas ao acesso à psicoterapia ou ao tratamento individual. Saúde mental também depende de condições concretas de existência.
Ter acesso à escola sem violência. Poder demonstrar afeto sem medo. Encontrar acolhimento familiar. Conseguir trabalho sem discriminação. Ser respeitado nos serviços de saúde. Existir socialmente sem precisar justificar a própria identidade.
Tudo isso impacta diretamente o bem-estar psíquico.
Por isso, combater a LGBTQIA+fobia é, sobretudo, uma questão de saúde pública e de direitos humanos.
Mesmo após décadas de avanços sociais e jurídicos, pessoas LGBTQIA+ continuam convivendo com índices alarmantes de violência, exclusão e sofrimento psíquico. Em muitos casos, o preconceito aparece em violências cotidianas que se acumulam ao longo do tempo: o medo de andar na rua, a necessidade de esconder relações afetivas, o silêncio imposto dentro da própria família ou a constante sensação de inadequação.
Por isso, o 17 de maio segue sendo uma data importante para reafirmar algo que nunca deveria precisar ser defendido: toda pessoa tem direito de existir com dignidade, segurança, respeito e liberdade.